Inovações na Produção de Alimentos: Óleo Sustentável a Partir de Resíduos
Um tipo de óleo, utilizado na fabricação de produtos cotidianos como chocolate e manteiga de amendoim, está sendo produzido a partir de algo inesperado: lixo, mais especificamente, resíduos alimentares. A expectativa é que este óleo tenha o mesmo sabor que os óleos convencionais utilizados nesses produtos. Contudo, este óleo inovador carrega benefícios adicionais significativos.
Ele se apresenta como uma alternativa que evita o desmatamento, a perda de habitats de animais e a exploração de mão de obra, problemas frequentemente associados à indústria do óleo de palma.
Este tema foi explorado durante a exposição “Futuro da Alimentação” no Museu de Ciências de Londres. A mostra gratuita visa apresentar práticas sustentáveis na produção de alimentos, contrastando carnes cultivadas em laboratório com a criação intensiva, e explorando o impacto futuro da bioengenharia e da tecnologia em nossos pratos e no planeta.
A Ciência por Trás de Novos Sabores
A exploração da nova ciência alimentar também pode desafiar o que consideramos apetitoso. A levedura, por exemplo, possui uma longa história no auxílio à fermentação de alimentos, sendo uma das tecnologias alimentares mais antigas da humanidade.
Um artefato notável em exposição é um pão de 3.500 anos, descoberto na tumba da Rainha Hatshepsut, no Egito. Embora o fermento natural tenha evoluído muito desde então, as leveduras agora desempenham um papel inédito na criação de um substituto sustentável para o óleo de palma.
O óleo de palma e outros óleos convencionais são responsáveis por uma grande parcela das emissões de gases de efeito estufa. Dada a crescente população mundial, a busca por novas maneiras de alimentar as pessoas e sustentar o sistema alimentar é urgente.
Cultivando Óleo a Partir de Resíduos com Levedura Especial
O processo inovador envolve o cultivo de uma levedura específica: a Metschnikowia Pulcherrima, uma levedura de vinho.
O método consiste em cultivar essa levedura utilizando resíduos alimentares ou aparas de grama como substrato. Através deste cultivo, é possível gerar um óleo com propriedades equivalentes ao óleo de palma, à manteiga de cacau ou até mesmo ao óleo de colza.
O procedimento técnico é o seguinte:
- Cultivar a levedura no resíduo (waste feedstock) para maximizar a biomassa.
- A levedura produz pequenas gotículas de óleo em seu interior celular.
- As células são rompidas para liberar o óleo.
O óleo resultante pode ser utilizado em uma variedade de produtos, desde margarina e chocolate até os pães e manteigas de amendoim exibidos no museu.
É importante notar que este óleo é derivado de resíduos industriais – alimentos descartados durante a produção, antes de chegarem ao consumidor. Embora a ideia possa não soar inicialmente muito apetitosa, a equipe assegura que o produto é seguro para consumo. No entanto, existe a possibilidade de que os consumidores se sintam incomodados com a origem do ingrediente.
Reavaliando o “Natural” e o “Nojento”
Muitas vezes, as pessoas estão distantes da realidade de como os alimentos são produzidos. Por exemplo, a carne cultivada em células gera reações de estranheza em algumas pessoas, que a consideram “nojenta”.
No entanto, ao considerar a realidade da pecuária industrial – um sistema cruel e ambientalmente problemático, que não é inerentemente mais “natural” – é possível reavaliar os sentimentos de repulsa. Cerca de 85% da carne consumida em alguns países, como o Reino Unido, é proveniente da criação intensiva. Ao comparar as duas abordagens, o conceito do que consideramos “natural” pode ser questionado.
A carne cultivada em laboratório e os alimentos geneticamente modificados (OGMs) também estão em destaque na exposição. Os OGMs enfrentaram controvérsias nas últimas quatro décadas. A engenharia genética, que emergiu como tecnologia em meados dos anos 80 (GM), é, na verdade, uma prática que existe há milênios através da seleção artificial de plantas.
A exposição mostra grãos de trigo antigos como um dos primeiros exemplos de domesticação. Os humanos selecionaram, ao longo dos anos, variedades de trigo que não perdiam os grãos facilmente, facilitando a colheita. O objetivo foi inserir a engenharia genética em uma história muito mais longa de melhoramento seletivo.
Alternativas e Desafios Agrícolas
Outro foco da pesquisa é encontrar alternativas à agricultura tradicional, como a biotecnologia aplicada para engenheirar plantas que não necessitem de fertilizantes. Existem diversas abordagens para resolver os grandes problemas globais.
A indústria agrícola e alimentícia enfrenta múltiplos desafios, incluindo as mudanças climáticas. O aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos está alterando os calendários de plantio, gerando insegurança alimentar em áreas economicamente vulneráveis e em regiões afetadas por conflitos. Frequentemente, a própria forma como cultivamos e distribuímos alimentos contribui para esses problemas.
Estima-se que 29,7% de todas as emissões de carbono provenham do setor agrícola. Além disso, as práticas agrícolas industriais atuais exigem um uso excessivo de água e podem resultar em desmatamento e perda de biodiversidade.
É uma situação problemática que, talvez em breve, possa melhorar com soluções como o óleo sustentável feito a partir de resíduos.
Perguntas Frequentes
- O que é a levedura utilizada para produzir o óleo sustentável?
A levedura utilizada é uma cepa de vinho chamada Metschnikowia Pulcherrima, que é cultivada sobre resíduos alimentares. - Como o óleo produzido a partir de resíduos se compara ao óleo de palma?
O óleo gerado pela levedura possui equivalência em propriedades ao óleo de palma, à manteiga de cacau ou ao óleo de colza. - Por que a produção de óleo de palma tradicional é problemática?
A indústria do óleo de palma é comumente associada a problemas como desmatamento, perda de habitats de animais e exploração de mão de obra. - Qual a relação entre a engenharia genética moderna e o melhoramento de plantas antigo?
A engenharia genética moderna (GM) é apresentada como uma continuação da tecnologia de seleção artificial que os humanos praticam há milênios no melhoramento de plantas, como evidenciado pela domesticação do trigo. - Qual a porcentagem das emissões de carbono que vêm do setor agrícola?
Pesquisadores estimam que 29,7% de todas as emissões de carbono são provenientes do setor agrícola.






