O Fim do P2 e do MicroSD: Por Que Foi um Tiro no Pé na Tecnologia Móvel
Muitas vezes, perguntas recorrentes enviadas por leitores e seguidores acabam motivando a criação de conteúdo. Uma dúvida que tem aparecido com frequência é sobre a necessidade de celulares que ainda ofereçam entrada para cartão microSD ou para fones de ouvido com conexão P2 (o famoso jack de 3.5mm).
Essas duas características, que eram padrão em dispositivos móveis por muito tempo, estão desaparecendo gradativamente. Neste artigo, vamos discutir por que a remoção do P2 e do microSD pode ser vista como um passo negativo, limitando as escolhas e o controle do usuário sobre seus dispositivos e serviços.
O Adeus ao P2 e o Reinado dos Fones TWS
O conector P2 sempre foi um padrão amplamente utilizado e querido por todos, presente em diversos celulares ao longo dos anos. Quem não se lembra do antigo Moto E de primeira geração ou de outros modelos com essa entrada física? Muitos usuários, inclusive, preferem a confiabilidade dos fones com fio.
Com a popularização da tecnologia wireless, o mercado se inclinou para os fones TWS (True Wireless Stereo). A ideia era promover uma experiência clean e sem fios, algo que realmente traz conforto no uso diário, permitindo guardar o celular no bolso sem se preocupar com cabos emaranhados.
No entanto, a migração para o TWS trouxe algumas desvantagens técnicas:
- Qualidade de Áudio: De modo geral, para atingir uma qualidade de áudio de alta resolução (Hi-Fi ou Lossless) de forma acessível, os fones com fio P2 eram superiores. Fones TWS mais baratos tendem a sacrificar a qualidade do áudio em comparação com um fone com fio simples. Para igualar essa qualidade com um TWS, é necessário investir um valor significativamente maior.
- Latência: Em atividades como jogos, a latência (o atraso entre a ação e o som) é crucial. Embora muitos fones sem fio prometam latência ultrabaixa, raramente eles se equiparam aos fones com fio. Muitas vezes, para reduzir a latência, os fabricantes sacrificam a qualidade sonora do áudio transmitido via Bluetooth.
A remoção da porta P2 é frequentemente justificada pela necessidade de liberar espaço interno no aparelho, que poderia ser usado para aumentar a bateria ou adicionar outras funcionalidades. Contudo, essa lógica é questionável, especialmente porque existem celulares que mantêm a resistência à água (IP rating) mesmo com a entrada P2.
No final, o que parece ter ocorrido é que a retirada do P2 abriu espaço para forçar o consumidor a investir em acessórios sem fio (TWS), ou a usar adaptadores, como aqueles que convertem a porta USB-C para P2, o que é, na visão de muitos, um incômodo desnecessário.
O Dilema do Armazenamento com MicroSD
A entrada para cartão microSD permite ao usuário expandir o armazenamento do dispositivo de forma relativamente simples e barata. Você compra o cartão, insere na bandeja junto ao chip SIM e pronto: tem mais espaço para fotos, vídeos e músicas.
O principal argumento utilizado para a retirada do suporte ao microSD é a velocidade. Alega-se que o armazenamento interno do celular é drasticamente mais rápido, e o uso de um cartão de memória externo mais lento poderia prejudicar a performance geral do sistema operacional.
Embora haja verdade nisso — arquivos essenciais para o funcionamento do sistema (como aplicativos que exigem leitura/escrita muito rápida) realmente se beneficiam da memória interna —, a maior parte do que os usuários armazena são dados que não exigem essa velocidade extrema:
- Fotos e vídeos (que ocupam muito espaço).
- Músicas e arquivos de mídia.
- Alguns aplicativos que podem ser transferidos sem prejudicar a experiência central do sistema.
Quando o microSD é removido, o consumidor é forçado a comprar uma versão do celular com maior capacidade de armazenamento interno. O problema reside no custo final:
A diferença de custo de fabricação entre dobrar a memória interna (ex: de 128GB para 256GB) é irrisória para a fabricante — centavos. No entanto, no preço final para o consumidor, essa diferença pode representar centenas de reais.
Se o usuário optasse por comprar um celular com menos armazenamento interno e complementasse com um microSD, ele economizaria bastante. A ausência dessa opção empurra o consumidor para um modelo de “aluguel” de armazenamento (como serviços de nuvem), em vez de propriedade do hardware.
A Questão da Nuvem e a Perda da Propriedade
O uso de armazenamento em nuvem, como Google One, é prático e oferece mobilidade. Seus dados ficam acessíveis de qualquer dispositivo ao logar na sua conta, o que é uma grande conveniência. No entanto, isso transforma o consumidor em um locatário contínuo do serviço.
Enquanto você paga a mensalidade ou anuidade, tudo funciona perfeitamente. Se o pagamento for interrompido, o espaço fica cheio e você se vê limitado novamente. O microSD, por outro lado, é um bem físico comprado e possuído integralmente pelo usuário.
O caminho atual da tecnologia parece nos levar a um cenário onde deixamos de ser proprietários de nossos bens (smartphones, armazenamento, talvez até softwares) e passamos a alugá-los, o que representa um risco em termos de liberdade e custos a longo prazo.
Perguntas Frequentes
- O que é o fone P2?
P2 é a nomenclatura comum para a entrada física de 3.5mm utilizada em fones de ouvido com fio, que foi amplamente utilizada em celulares antes da padronização para conexões sem fio ou USB-C. - Qual a principal desvantagem dos fones TWS em relação ao P2?
Em geral, fones TWS podem apresentar menor qualidade de áudio em faixas de preço mais baixas e tendem a ter maior latência (atraso de áudio) em comparação com os fones com fio P2. - Por que as fabricantes removeram o slot microSD?
O principal argumento oficial é que a memória interna é mais rápida e que o microSD poderia comprometer a performance do sistema. No entanto, críticos apontam que isso força o consumidor a comprar versões mais caras com mais memória interna. - É possível usar armazenamento em nuvem como substituto total do microSD?
Sim, é possível armazenar fotos, vídeos e músicas na nuvem, mas isso cria uma dependência contínua de pagamento por um serviço, em vez de possuir o hardware de armazenamento. - Qual a melhor forma de obter alta qualidade de áudio hoje?
A melhor qualidade de áudio, especialmente em faixas de preço acessíveis, ainda costuma ser alcançada com fones com fio conectados à porta P2 ou, se o celular não a possuir, via adaptadores de boa qualidade.
É importante que os consumidores fiquem atentos a essas mudanças e não celebrem acriticamente a remoção de funcionalidades, como o P2 e o microSD, sob a justificativa de “inovação” ou “melhoria de design”. Em muitos casos, o que se perde é o controle sobre o que é de fato nosso.






