Você já ouviu falar em big data, mas conhece o conceito de “informação colossal”? E não estamos falando de inteligência artificial, mas sim de uma “consciência falsa”. Esses são exemplos clássicos de termos bizarros que acabaram sendo publicados em periódicos científicos reais.
Para entender o que está acontecendo com essas formulações estranhas, vale a pena olhar para um fenômeno que ganhou repercussão recentemente. Um artigo científico foi descoberto utilizando uma ferramenta projetada para ocultar plágio. Esse software reescreveu trechos plagiados e acabou transformando, por exemplo, o termo “solução final” em “a máscara de um grupo étnico” dentro de um artigo de química. Felizmente, o documento acabou sendo retratado após a denúncia de um usuário no site PubPeer, uma plataforma onde voluntários buscam fraudes acadêmicas.
O problema das fábricas de artigos científicos
Embora casos que viralizam nas redes sociais chamem a atenção, eles revelam um problema muito maior: as chamadas fábricas de artigos (paper mills). Nesses esquemas, acadêmicos pagam para ter seus nomes incluídos em trabalhos que são inventados ou gerados de forma artificial. Muitas vezes, os golpistas roubam trechos de outros estudos, misturam tudo e passam o texto por um “gerador de sinônimos”.
Vale destacar que isso nem sempre é culpa da inteligência artificial. Os grandes modelos de linguagem atuais são bem mais sofisticados do que isso; estamos falando de ferramentas primitivas que simplesmente recorrem a um dicionário de sinônimos de forma robótica.
Investigando mais a fundo esses textos problemáticos, encontram-se substituições hilárias e sem sentido técnico, tais como:
- Phosphates safeguard answer (provavelmente significava phosphate buffer solution, ou solução tampão de fosfato).
- Total response book (provavelmente significava total reaction volume, ou volume total de reação).
- Backlash combination (provavelmente significava reaction mixture, ou mistura reacional).
- Unprotected to light (provavelmente significava exposed to light, ou exposto à luz).
- Profound neural organization (provavelmente significava deep neural network, ou rede neural profunda).
- Leftover vitality (provavelmente significava remaining energy, ou energia restante).
Por que esses textos passam pela revisão científica?
Se esses erros são tão óbvios, como conseguem passar pelo processo de revisão por pares? A resposta passa por dois fatores principais: o modelo de negócios de certos periódicos e a corrupção.
Existem basicamente dois tipos de revistas acadêmicas:
- Revistas de acesso aberto: Qualquer um pode submeter um artigo, mas é preciso pagar para publicar. Como elas lucram com o volume de publicações, muitas vezes priorizam a quantidade em detrimento da qualidade.
- Revistas baseadas em assinaturas: Como não dependem das taxas de submissão para lucrar, possuem maior incentivo para manter rigorosos padrões de qualidade.
As fábricas de artigos costumam alvejar as revistas de acesso aberto, chegando muitas vezes a subornar revisores para garantir que o material seja aprovado sem uma análise real.
Por que cientistas recorrem a essas práticas?
O motivo por trás desse comportamento reside na intensa pressão exercida por instituições acadêmicas sobre os pesquisadores. Professores e cientistas frequentemente enfrentam cobranças para publicar um volume inexequível de trabalhos para manter seus empregos. Sem tempo hábil devido a outras funções, alguns optam por terceirizar a produção para preencher requisitos burocróricos, apostando que administradores acadêmicos dificilmente farão uma leitura crítica a fundo.
Como identificar periódicos e artigos problemáticos?
Existem ferramentas e plataformas desenvolvidas para ajudar a auditar a confiabilidade de pesquisas:
- PubPeer: Plataforma comunitária onde leitores podem consultar identificadores de artigos para verificar se há críticas ou alertas de fraude apontados por outros pesquisadores.
- Problematic Paper Screener: Ferramenta que conta com um detector específico para identificar os chamados “frases torturadas”.
- Scimago Journal & Country Rank (SJR) e Scopus: Sites para verificar métricas de periódicos, embora especialistas apontem que essas pontuações costumam se basear em citações e podem não refletir um índice real de confiabilidade ética.
Neste artigo, fica o alerta: ao navegar pela literatura científica, evite tomar títulos e resumos pelo valor de face. O ecossistema de publicações exige olhar crítico constante para separar a ciência legítima de produções automatizadas.
Perguntas Frequentes
- O que são “frases torturadas” em artigos científicos?
São termos gerados por softwares que substituem palavras por sinônimos aleatórios para tentar burlar softwares anti-plágio, resultando em frases sem sentido técnico ou gramatical. - Como funcionam as fábricas de artigos (paper mills)?
São serviços clandestinos que produzem pesquisas falsas ou plagiadas e vendem autoria para pesquisadores que precisam cumprir metas de publicação. - Por que a inteligência artificial não é a única culpada por esses erros?
Muitos desses textos utilizam substituições simples de dicionário de sinônimos (ferramentas antigas de reescrita), gerando termos absurdos que modelos avançados de IA facilmente evitariam. - É possível confiar totalmente nas métricas de revistas científicas?
Nem sempre. Índices baseados em citações medem a popularidade ou impacto das revistas, mas podem não refletir falhas de revisão ética ou casos de corrupção editorial. - Onde é possível verificar se um artigo possui problemas de integridade?
Plataformas como o PubPeer e ferramentas específicas de triagem acadêmica permitem consultar alertas e discussões da comunidade científica sobre publicações suspeitas.


