Destruindo Tumores com Som: Demonstração e Explicação da Histotripsia

Hystotripsy: A Revolução Não Invasiva no Tratamento de Tumores com Ondas Sonoras

Uma tecnologia notável está revolucionando o tratamento de tumores: a **Hystotripsy**. Trata-se de um procedimento que utiliza ondas de ultrassom direcionadas para destruir tumores de maneira não invasiva. Apresentamos aqui os detalhes sobre como essa máquina funciona, seu processo de aplicação e o potencial futuro dessa inovação médica.

O Sistema Edison e o Princípio da Hystotripsy

O sistema Edison, fabricado pela Hystoonics, é atualmente a única máquina de hystotripsy disponível comercialmente para uso em humanos. Este método se destaca por ser minimamente invasivo.

O procedimento em si não envolve incisões ou cortes na pele, mantendo a área de tratamento essencialmente estéril. A parte mais invasiva geralmente é a inserção de um acesso venoso (IV) para permitir a sedação do paciente. Na maioria dos casos, anestesia geral é administrada para que o paciente permaneça completamente imóvel durante o tratamento.

Preparação e Funcionamento da Máquina

O paciente é posicionado em uma mesa, e um componente chave do sistema, chamado de **banho de água** (water bath), é colocado sobre a área do corpo onde o tumor está localizado. Este banho de água tem uma função crucial: ele substitui o gel usado em exames de ultrassom convencionais, garantindo que não haja bolsões de ar entre o dispositivo e a pele. Bolsões de ar podem difundir as ondas de ultrassom e comprometer a eficácia do tratamento.

A água utilizada é água da torneira que passa por um filtro especial para remover todas as bolhas de ar.

O sistema de ultrassom funciona de maneira análoga a uma antena parabólica, com múltiplos arranjos de emissão de ultrassom. Todas essas ondas são focalizadas para convergir em um **ponto focal muito pequeno**. É somente nesse ponto focal que a hystotripsy ocorre, protegendo o tecido circundante e a parede do corpo que está no trajeto das ondas.

Mecanismo de Destruição do Tumor

A destruição das células tumorais pela hystotripsy é um processo mecânico, diferente dos métodos baseados em calor (térmicos) ou radiação.

O mecanismo envolve a **expansão e contração rápidas dos gases naturalmente presentes** dentro das células tumorais. Esse processo liquefaz o tecido. O tratamento é instantâneo: assim que a energia da hystotripsy é entregue, o tecido é destruído, não sendo necessário esperar por efeitos a longo prazo. O tumor liquefato é, então, absorvido naturalmente pela resposta imune do corpo.

Estudos preliminares em modelos animais sugerem que o material liberado (lisado tumoral) pode conter antígenos ou proteínas que estavam ocultos do sistema imunológico. A absorção desse lisado pode gerar um benefício imunológico sistêmico, permitindo que o próprio sistema imunológico do corpo reconheça o tumor. Embora essa aplicação sistêmica exija mais pesquisa em humanos, já é observada em modelos animais.

O Processo de Tratamento e Calibração

Os médicos monitoram a hystotripsy em tempo real usando imagens de ultrassom para garantir que tudo ocorra conforme o planejado.

O processo começa com a **definição de pontos de planejamento** que mapeiam o formato exato do tumor a ser atingido. É fundamental incluir uma pequena margem de tecido saudável ao redor da lesão. O sistema Edison, então, move essa “nuvem de bolhas” (o volume de tratamento planejado) para destruir o alvo com precisão.

A máquina permite ajustes no tamanho do alvo (de grande a pequeno) e na potência necessária, que varia para cada paciente e cada tumor.

Resultados e Aplicações Clínicas Atuais

A hystotripsy recebeu aprovação do FDA em outubro de 2023 e sua disponibilidade está crescendo à medida que mais unidades são produzidas.

Atualmente, a aplicação principal da hystotripsy está focada na destruição de **tumores hepáticos (do fígado)**. Há relatos de casos de sucesso, onde, após a aplicação da energia, o tecido hepático se regenerou e reabsorveu completamente a lesão em um período de quatro meses.

Embora não substitua todas as cirurgias, a hystotripsy oferece uma alternativa para pacientes que poderiam ter complicações maiores com procedimentos cirúrgicos tradicionais, que frequentemente exigem internação hospitalar.

Potencial Futuro da Tecnologia

A hystotripsy é vista como uma plataforma tecnológica com potencial para ser aplicada em diversos órgãos do corpo, tanto para condições cancerosas quanto não cancerosas.

Existem ensaios clínicos em andamento para tratar:
* **Tumores renais primários** (com resultados esperados nos próximos anos).
* **Tumores pancreáticos** (em ensaios na Espanha, com previsão de chegada aos EUA em 2026).
* **Fibromas uterinos**.
* **Nódulos de tireoide e tumores mamários** (com o desenvolvimento de dispositivos menores).
* **Tumores cerebrais**.

Um desafio técnico reside em órgãos preenchidos com ar, como pulmões, estômago e intestinos, pois as ondas de ultrassom se dissipam no ar.

Recuperação e Repetição do Tratamento

A duração de um procedimento de hystotripsy pode variar de **1 a 3 horas**, dependendo do número de tumores a serem tratados. A maioria dos pacientes recebe alta hospitalar apenas algumas horas após o término.

É comum sentir alguma dor ou desconforto no local do tratamento, especialmente em sessões maiores. Alguns pacientes com tratamentos menores podem não apresentar sintomas. No dia seguinte, pode ocorrer uma reação inflamatória sistêmica, manifestada por febre ou sintomas semelhantes aos de uma gripe (mal-estar geral), o que é considerado uma reação normal do corpo ao processo.

Uma grande vantagem é que o procedimento pode ser repetido várias vezes, desde que a função hepática do paciente permaneça normal, permitindo o tratamento de múltiplos tumores, seja na mesma sessão ou em sessões espaçadas por semanas ou meses.

Perguntas Frequentes

  • O que é Hystotripsy?
    É um tratamento de câncer não invasivo que usa ondas de ultrassom focadas para destruir mecanicamente tecidos tumorais, liquefazendo-os.
  • Qual é a principal diferença entre Hystotripsy e cirurgia?
    A Hystotripsy é um procedimento mecânico que não envolve cortes, enquanto a cirurgia tradicional remove fisicamente o tecido e é mais invasiva.
  • Como os médicos garantem que apenas o tumor seja atingido?
    O sistema calibra o tratamento com base em pontos de planejamento que mapeiam o tumor mais uma pequena margem. As ondas de ultrassom convergem para um ponto focal muito preciso, com uma margem de ação nítida.
  • É possível repetir o procedimento?
    Sim, a Hystotripsy pode ser repetida várias vezes, desde que a função hepática do paciente seja adequada.
  • Quais outras áreas do corpo poderão ser tratadas futuramente?
    Há potencial para expansão para próstata (para BPH e câncer), fibromas uterinos, tumores cerebrais, mama e tireoide.