Explorando o Futuro da Vida Subaquática com Habitats Inovadores
Uma empresa está determinada a tornar a permanência humana subaquática por meses uma realidade até o final desta década, utilizando habitats especializados. Para entender melhor essa ambição, exploramos as instalações da companhia e mergulhamos em um ambiente que simula as condições necessárias para testar esses projetos.
O Campo de Testes Subaquático
Nossa jornada começa em um local singular: um pequeno lago que, na verdade, é uma antiga pedreira de calcário perto de Bristol, no Reino Unido. O lago se encheu naturalmente de água, e o calcário presente filtra e clarifica a água, permitindo uma boa visibilidade inicial.
No entanto, ao mergulhar, a luz desaparece rapidamente. Com a perda da luz, as cores primárias são absorvidas, o que altera drasticamente a aparência de tudo, inclusive de quem está submerso.
Atingimos a profundidade máxima do lago, que chega a 80 metros. Embora essa profundidade não seja comparável às vastas extensões do oceano, a ausência de luz nesse ponto simula o ambiente do fundo do mar, tornando-o um local ideal para os testes iniciais dos habitats de águas profundas da empresa.
Uma grande vantagem deste local é que a água é controlada. Diferente do oceano aberto, onde condições climáticas adversas (como ondas altas) podem forçar o cancelamento de mergulhos, a pedreira permite que os testes ocorram durante todo o ano, sem depender das condições marítimas. Isso é crucial para manter o cronograma de desenvolvimento do produto sob controle.
Embora cientistas e mergulhadores da empresa mergulhem regularmente para praticar e coletar objetos no fundo do lago, o teste efetivo dos habitats subaquáticos ainda é um plano futuro.
Conhecendo o Habitat Sentinel
Atualmente, o primeiro habitat desenvolvido pela companhia, batizado de Sentinel, está em terra firme. Seu layout primário é bem definido:
- O Grande Salão é a área central.
- Uma escadaria leva aos outros níveis.
- Existe um laboratório seco, onde equipamentos podem ser utilizados.
- Após o trabalho realizado na água, os materiais podem ser trazidos para o laboratório para amostragem, sequenciamento ou outras análises.
Uma característica fundamental desses habitats é a conectividade constante com colegas em instalações terrestres (“bricks and mortar”). Isso é garantido por uma boia de comunicação Starlink conectada à superfície, que permite colaboração em tempo real, como reuniões via Zoom e compartilhamento de descobertas.
Abaixo do laboratório, um corredor leva às acomodações. O projeto prevê beliches individuais em cada lado do corredor. É importante notar que esses quartos são isolados acusticamente, garantindo o tempo privado necessário para cada morador.
A Evolução da Tecnologia de Habitats Subaquáticos
A história dos habitats de águas profundas remonta à década de 1960, com o projeto pioneiro de Jacques Cousteau, a Estação da Plataforma Continental (Conshelf). Em 1962, o Conshelf One foi inaugurado, uma cabine com ar comprimido onde dois mergulhadores viveram a 35 pés de profundidade por 69 horas.
Embora a tecnologia tenha avançado significativamente nos últimos sessenta anos, o trabalho de Cousteau pavimentou o caminho para projetos atuais como o da DEEP. Os habitats antigos eram um grande avanço para a capacidade humana de operar submersos, mas apresentavam limitações. O último habitat foi construído em 1986, há muito tempo.
A inovação na engenharia e tecnologia permitiu um salto considerável. A principal diferença nos habitats atuais é que eles são modulares, funcionando como peças de Lego. Os projetos mostram grandes aberturas com dois metros de diâmetro, que servem como pontos de conexão.
Essa modularidade permite que, uma vez implantado sob o oceano, o convés superior seja reconfigurado para servir como laboratório, centro de comunicação ou sala de reuniões, conforme a necessidade.
Outra revolução tecnológica é a fabricação dos habitats por meio de impressão 3D. Técnicas de manufatura convencionais são subtrativas (pegar um grande bloco de metal e removê-lo), o que é intensivo em energia e gera muito desperdício. A manufatura aditiva, por outro lado, constrói a estrutura. Isso possibilitou o desenvolvimento de formatos inéditos, como a estrutura única do Sentinel.
Para a impressão 3D, a equipe utiliza um conjunto de seis robôs móveis, chamados de Hexbots. Diferente dos robôs de impressão 3D tradicionais que são fixos, o Hexbot se move ao redor da estrutura, proporcionando maior flexibilidade ao processo de fabricação.
O Potencial Científico da Vida Submarina
O Sentinel é concebido para ser a versão oceânica da Estação Espacial Internacional, permitindo que cientistas realizem trabalhos de campo submersos. Várias áreas científicas podem ser drasticamente beneficiadas pela presença humana contínua sob o mar:
- Esforços de restauração, como a restauração de corais, especialmente em projetos mais profundos.
- Restauração de espécies em áreas que foram severamente afetadas por mudanças no oceano.
Um aspecto particularmente empolgante é a capacidade de processar amostras e observá-las in situ, no ambiente exato onde foram coletadas. Analisar uma amostra imediatamente após a coleta, sem o tempo de espera e as mudanças de pressão que ocorrem ao trazê-la à superfície, promete revelar muito sobre como os organismos reagem ao seu ambiente em tempo real. Isso também ajudará a identificar assinaturas associadas aos animais e espécies que vivem nas profundezas.
O oceano cobre quase 70% da superfície da Terra, mas os seres humanos exploraram apenas uma fração mínima. Estimativas indicam que conhecemos apenas cerca de 0,001% do fundo do oceano.
Além de superar as restrições tecnológicas, a empresa visa inspirar a próxima geração. Nas décadas de 1960 e 1970, houve um grande interesse tanto na exploração espacial quanto na “exploração interna” (o oceano), impulsionado pela inovação tecnológica. Este ímpeto diminuiu por algumas décadas, embora o interesse pelo espaço tenha ressurgido com a Estação Espacial Internacional em 2000.
O objetivo é reacender o interesse no oceano, motivando jovens a estudar ciências marinhas e engenharia marinha. Existe uma fascinação em deixar nosso planeta, mas temos um mundo alienígena aqui mesmo.
A visão é democratizar o acesso à vida subaquática, estendendo-o não apenas a pesquisadores, exploradores ou profissionais da indústria militar e comercial, mas a todas as pessoas. O desejo é que mais indivíduos possam experimentar esse ambiente, desenvolver um apego a ele e criar uma consciência humana conectada ao oceano.
Perguntas Frequentes
- O que são os habitats modulares da DEEP?
São estruturas construídas em seções, como peças de Lego, que utilizam grandes aberturas de conexão para serem montadas e reconfiguradas, inclusive sob a superfície do oceano, adaptando-se para servir como laboratório, sala de reuniões ou centro de comunicações. - Qual a importância da impressão 3D na fabricação dos habitats?
A impressão 3D (manufatura aditiva) permite construir a estrutura camada por camada, o que é menos desperdiçador e energeticamente mais eficiente que a manufatura subtrativa. Além disso, possibilita formas estruturais inovadoras, como a do Sentinel. - Como a comunicação é mantida com a superfície?
A comunicação é assegurada por uma boia de comunicação Starlink conectada à superfície, permitindo colaboração em tempo real, como chamadas de vídeo e compartilhamento de dados com colegas em terra. - Por que o teste em uma pedreira é vantajoso?
A pedreira de calcário oferece um ambiente subaquático controlado, com profundidade e pouca luz que simulam o fundo do mar, permitindo testes contínuos durante todo o ano, independentemente das condições climáticas adversas do oceano aberto. - É possível viver meses em um desses habitats no futuro?
Sim, a missão da empresa é possibilitar que pessoas vivam submersas por meses ao longo desta década, oferecendo um ambiente permanente para exploração e pesquisa subaquática.






