A Ciência da Desextinção: O Caso dos Lobos Direwolf da Colossal Biosciences
A empresa Colossal Biosciences gerou uma onda de atenção ao anunciar que trouxe de volta os icônicos direwolves (lobos terríveis), espécies extintas há mais de 12.000 anos e famosas na cultura popular. Contudo, o que exatamente a empresa realizou e o que isso significa para a conservação da vida selvagem atual são questões cruciais que merecem análise aprofundada.
Entender o que a Colossal fez é fundamental. A controvérsia gerada reside no fato de que os animais criados não são cópias geneticamente idênticas dos extintos, mas sim o que a empresa chama de proxies de desextinção.
O Processo de Criação dos Proxies
A Colossal deu origem a filhotes de lobo, incluindo dois machos chamados Romulus e Remis, e uma fêmea chamada Kesi, por meio de edição genética. O processo envolveu:
- Pegar o DNA de uma espécie existente: o lobo cinzento (greywolf).
- Realizar cerca de 20 edições em 14 genes diferentes para expressar características associadas ao lobo terrível, como tamanho e cor da pelagem.
- Os embriões resultantes foram implantados em cadelas grandes, com o parto realizado por cesariana planejada.
O debate principal se concentra na terminologia: se esses lobos editados geneticamente podem ser chamados de direwolves e se sua criação pode ser, de fato, considerada “desextinção”.
Segundo especialistas, nunca será possível recriar uma espécie 100% geneticamente idêntica à que existia. O objetivo é criar proxies que possam, teoricamente, substituir a espécie extinta em seu antigo ecossistema.
A Definição de Desextinção
A definição utilizada pela Colossal baseia-se nas diretrizes da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), que estabelece princípios para a criação de proxies de espécies ameaçadas para fins de conservação. A IUCN define desextinção como a criação de um organismo que assemelha-se a uma espécie extinta, ressaltando que o próprio termo “desextinção” pode ser enganoso.
Estamos, portanto, lidando com uma empresa de desextinção operando em um cenário onde o termo é considerado impreciso. Para compreender a metodologia, é útil analisar o primeiro animal geneticamente editado pela Colossal: os Woolly Mice (Camundongos Lanudos).
Os Woolly Mice e a Segurança Genética
O projeto dos Woolly Mice serviu para demonstrar a capacidade da empresa de realizar múltiplas edições genéticas simultaneamente. O processo não se resume a simplesmente “copiar e colar” genes de mamutes em camundongos.
A técnica envolveu a identificação de variações nos genes que evoluíram tanto em elefantes quanto em camundongos, focando em variantes que são compatíveis com um camundongo saudável. Apenas um gene foi inserido diretamente do genoma do mamute, pois havia alta confiança de que seria seguro dado a variabilidade natural dos camundongos naquele local genético específico.
Até o momento, a Colossal criou cerca de 38 Woolly Mice, que estão se reproduzindo. Os pesquisadores estão monitorando o impacto dessas edições múltiplas em seu genoma, especialmente em relação à sua capacidade de prosperar em climas frios.
Bem-Estar Animal e Imprevistos
A edição genética em animais levanta preocupações sobre efeitos não intencionais. Um exemplo disso ocorreu na tentativa de dar aos proxies de lobos terríveis suas pelagens brancas.
Ao estudar genomas antigos, descobriram-se variantes em três genes de pigmentação chave que resultavam em pelagem clara. No entanto, ao simular a aplicação dessas variações no fundo genético do lobo cinzento, verificou-se que a variação nesses mesmos genes poderia levar à cegueira ou surdez em cães. Por essa razão, a empresa optou por não seguir esse caminho para criar a pelagem clara, priorizando o bem-estar animal sobre a fidelidade fenotípica.
A prioridade declarada é desextinguir os genes centrais que impulsionam os fenótipos, mas sem comprometer o bem-estar dos animais.
Quando questionada sobre como a empresa lida com falhas no processo, foi explicado que a escolha de fazer apenas 20 edições foi intencional para minimizar os riscos, já que cada edição carrega algum risco inerente.
Conservação vs. Desextinção
Uma grande dúvida levantada é por que focar em espécies extintas em vez de espécies atuais ameaçadas. A Colossal afirma que está fazendo ambos os trabalhos.
Todas as tecnologias desenvolvidas para a desextinção são disponibilizadas gratuitamente para esforços de conservação. Isso inclui:
- Resgate Genético: Processo para adicionar diversidade genética a populações pequenas e endogâmicas.
- Biobanking (Criopreservação): Armazenamento de amostras biológicas.
- Criofreezing: Processo de armazenamento de materiais biológicos em baixas temperaturas.
A empresa também desenvolveu um novo método de clonagem que utiliza células de amostras de sangue em vez de amostras de tecido tradicionais, tornando o procedimento menos invasivo para o animal. Essa técnica foi usada para clonar quatro lobos vermelhos criticamente ameaçados. Esses clones foram feitos usando genes de uma população de “lobos fantasmas” (suspeitos de serem coiotes em Louisiana e Texas, mas que revelaram possuir DNA significativo de lobos vermelhos), o que aumentou a diversidade genética do pool de reprodução em cativeiro em 25%.
A publicidade gerada pela desextinção também visa elevar o perfil de projetos de preservação de lobos.
Desafios e Preocupações da IUCN
A comunicação clara e honesta é vital, pois mensagens ambíguas podem gerar confusão e desconfiança, obscurecendo a conversa necessária sobre a ciência envolvida.
A empresa continua avançando em seus três projetos principais: o mamute, o dodô e o tilacino (tigre-da-Tasmânia). A seleção dessas espécies baseia-se em dois critérios principais:
- Viabilidade Técnica: Se é possível realizar o procedimento (ex: a vaca marinha de Steller, grande como uma baleia, não pode ser gestada sem úteros artificiais).
- Significado (Cultural, Indígena e Ecológico): A relevância da espécie.
O fato de estarem trabalhando com um mamífero placentário, um marsupial e uma ave exige a solução de diferentes desafios tecnológicos, mas o desenvolvimento dessas ferramentas pode beneficiar a conservação da biodiversidade em geral.
Apesar dos avanços, preocupações significativas persistem, muitas alinhadas com os princípios da IUCN. Entre os potenciais malefícios estão:
- Diminuição do Apoio à Prevenção de Extinções: O público pode acreditar erroneamente que a extinção é reversível, promovendo apatia em relação aos esforços atuais de conservação.
- Riscos aos Animais: Riscos para os animais criados por edição genética/clonagem, para os animais surrogates, e para qualquer descendente híbrido.
- Reintrodução Ecológica: Desafios sobre os efeitos de reintroduzir essas espécies nos ecossistemas, o potencial de invasividade das espécies proxy e a ameaça de ressuscitar patógenos antigos.
Os primeiros direwolves criados viverão em um santuário de 2.000 acres em local não revelado. Manter esses animais em cuidados gerenciados permite estudar o impacto das edições genéticas na epigenética, na longevidade e no risco de câncer. É enfatizado que este trabalho não é um substituto para a conservação, e sim um complemento, não sendo um jogo de soma zero.
Perguntas Frequentes
- O que significa “proxy de desextinção”?
Significa criar um organismo que se assemelha a uma espécie extinta, mas que não é geneticamente idêntico a ela, visando propósitos de conservação. - Como a Colossal Biosciences criou os filhotes de lobo?
Eles pegaram o DNA de lobos cinzentos e fizeram cerca de 20 edições em 14 genes para imitar características dos lobos terríveis, implantando os embriões em cadelas. - Por que o termo “desextinção” é considerado enganoso?
Porque é impossível recriar um animal 100% idêntico à espécie extinta, e o foco está na função ecológica e na semelhança, não na cópia exata. - É possível que as edições genéticas causem efeitos colaterais indesejados?
Sim, como demonstrado na tentativa de criar pelagem clara, que poderia levar à cegueira ou surdez no fundo genético do lobo cinzento. - Qual a relação da desextinção com a conservação de espécies vivas?
A empresa afirma que as tecnologias desenvolvidas para a desextinção, como o Resgate Genético e a Biobanking, são disponibilizadas gratuitamente para auxiliar na conservação de espécies ameaçadas.






