A Inevitável Enchitificação das Gigantes de Tecnologia: Uma Análise Crítica
A discussão sobre o futuro da Apple frequentemente oscila entre extremos. De um lado, há quem afirme que a empresa está em um processo de **”enchitificação”** – um termo que, livremente traduzido do inglês *“shittification”*, descreve a degradação dos serviços e produtos ao longo do tempo, motivada pela maximização de lucros ou pela inércia corporativa, deixando o consumidor com menos opções de qualidade. De outro lado, há quem acredite que a Apple está executando um plano secreto, prestes a realizar uma guinada e assumir a liderança no mercado de inteligência artificial.
Este artigo propõe analisar essas visões opostas, examinando o histórico da empresa e o panorama atual da indústria tecnológica.
O Paradoxo da Crítica Constante
É curioso observar a dualidade de opiniões que circunda a Apple. Canais e especialistas frequentemente apresentam visões completamente opostas: uns decretam o atraso da empresa, enquanto outros a colocam na vanguarda.
Muitos apontam o atraso da Apple em áreas como o lançamento de um dispositivo dobrável, algo que já é especulado há anos, ou a suposta falta de grandes revoluções no iPhone há um bom tempo. Em contrapartida, há quem defenda que todos esses movimentos fazem parte de uma estratégia de longo prazo.
Se a Apple estivesse, de fato, em um processo de degradação tão severo, por que ainda haveria tanta discussão e tanta gente se importando, chegando a comparar produtos como um Galaxy J7 com um iPhone? Isso sugere que, apesar das críticas, a marca mantém uma relevância significativa no mercado.
A Computação Pessoal e o Legado da Apple
É crucial olhar para a indústria de tecnologia de forma mais ampla, e não apenas focada no iPhone. No início da computação pessoal, a Apple desempenhou um papel tão fundamental quanto o que o Linux e o Windows representam hoje para os sistemas operacionais.
A computação, por natureza, é cara. Antigamente, equipamentos eram proibitivos para o consumidor médio. Graças à Apple, que começou a fabricar Macs com peças menos robustas (em comparação a máquinas profissionais) e mais acessíveis, o conceito de computação pessoal começou a surgir. O Windows, subsequentemente, permitiu que qualquer hardware montado em casa rodasse um sistema operacional, popularizando a computação pessoal.
Apesar de a Apple ter sido pioneira em várias inovações, como a tela multitoque capacitiva (que dispensava canetas resistivas), forçando a indústria a adotar maior qualidade em telas, esse momento em que ela ditava o ritmo e os outros copiavam já passou há muito tempo.
A Evolução dos Sistemas Operacionais e o Preço
Embora o preço dos produtos Apple seja frequentemente um ponto de discórdia, e o autor admita não concordar com o valor cobrado pelos iPhones, dizer que o produto é inerentemente “ruim” parece, na visão deste artigo, mal-intencionado. Se fosse o caso, a base de usuários não seria tão fiel.
Os usuários permanecem no ecossistema Apple por estarem acostumados, e o iOS, assim como o Android, continua trazendo atualizações constantes. Em testes de migração, percebe-se que os sistemas estão visualmente e funcionalmente muito similares: o Android tem incorporado recursos que o colocavam atrás, e o iOS tem se aberto.
O argumento de que a Apple parou de inovar é parcialmente aceitável, visto que ela pode ter ficado para trás em algumas áreas de inovação pura. Contudo, a qualidade dos produtos em si não decaiu.
O Fenômeno da “Enchitificação” no Mercado Tech
O termo *entification* (ou “enchitificação”) se aplica a empresas que, ao atingir um domínio de mercado (como o Spotify, que pode aumentar preços sem ouvir ativamente as necessidades do usuário devido à pouca concorrência), começam a degradar seus serviços.
Isso não é exclusividade da Apple. O mercado mobile como um todo parece estar em um estado de **”institificação”** – ou “enchitificação” – geral. A Samsung, por exemplo, lança o mesmo modelo de dobrável com a mesma bateria há várias gerações.
O esforço que a Apple dedica a um produto como o Apple Vision Pro, embora impressionante em termos de potência (como os chips M4, M5 ou M6), gera ceticismo: a experiência de usar um equipamento preso ao rosto é apresentada como algo inerentemente antinatural, apesar da tecnologia embarcada.
O clube de fãs da Apple, que prevê ou sua queda iminente ou sua revolução salvadora, é polarizado. A realidade é que o mercado está estagnado em muitos aspectos. Empresas grandes como Apple, Samsung e Xiaomi são potências bilionárias e estão primariamente focadas em seus acionistas e lucros, não necessariamente na felicidade imediata do usuário.
A Busca pela Verdadeira Inovação
A expectativa de que a Apple lançaria uma “grande revolução” com o iPhone 17, após um período de incrementos sutis, é um sintoma dessa polarização.
Entretanto, inovações significativas muitas vezes são guardadas por anos. O Google, por exemplo, investiu em IA por uma década antes de integrar plenamente recursos do Gemini nos Pixels. Muitas empresas seguraram o lançamento de inovações até sentirem a pressão da concorrência.
Um exemplo claro de inovações importantes que demoram a chegar é a medição de glicemia em relógios inteligentes, algo que nenhuma grande marca conseguiu lançar de forma não invasiva e confiável após anos de especulação, enquanto métodos invasivos e caros ainda são a norma para quem precisa monitorar a condição. Se a Apple lançasse tal recurso, seria um avanço de mercado, não necessariamente um sinal de que ela se esforçou mais do que as outras no passado, mas sim um acerto estratégico no momento certo.
Em resumo, o mercado tech mobile está passando por um período de estagnação em termos de inovações radicais, caracterizado pela “enchitificação” generalizada. O fanatismo em torno da Apple, seja para celebrar seu suposto declínio ou sua iminente vitória, desvia o foco da necessidade de cobrar melhorias em todo o setor, incluindo a reparabilidade dos dispositivos, que foi sacrificada em nome da portabilidade e lucratividade.
Perguntas Frequentes
- O que significa o termo “enchitificação” no contexto de tecnologia?
Significa a degradação gradual da qualidade de serviços e produtos de uma empresa ao longo do tempo, geralmente motivada pela busca excessiva por lucros ou pela inércia, resultando em menos valor para o consumidor. - Qual a importância da Apple no início da computação pessoal?
A Apple teve um papel crucial ao fabricar Macs com peças mais acessíveis (embora ainda caras) do que equipamentos profissionais, popularizando o conceito de computação pessoal, que foi amplamente expandido pelo Windows posteriormente. - Por que as pessoas permanecem no ecossistema Apple se há tantas críticas?
A permanência ocorre em grande parte pela familiaridade com o ecossistema e o hábito de uso. Além disso, os sistemas operacionais (iOS e Android) estão se tornando mais parecidos em termos visuais e de recursos com o tempo. - É verdade que a Apple parou de inovar?
Embora a empresa possa ter ficado para trás em inovações puras em comparação com concorrentes em certas áreas, a qualidade geral dos produtos não diminuiu, e inovações importantes podem estar sendo preparadas e lançadas em momentos estratégicos. - Qual a principal causa da estagnação no mercado mobile atual?
A estagnação é vista em várias empresas, como a repetição de especificações em dobráveis por anos. Isso reflete uma prioridade em lucratividade e portabilidade, em detrimento de inovações disruptivas ou facilidade de reparo.






