A Conexão Inesperada: Motores Supersônicos para Alimentar a Revolução da IA
À medida que a inteligência artificial avança, a demanda por energia em data centers cresce exponencialmente. Centros de processamento de dados famintos por energia estão surgindo por todo o país, levantando questões cruciais sobre como obter energia suficiente para mantê-los funcionando de forma confiável. Curiosamente, uma resposta potencial para este desafio energético pode vir de um setor que busca o futuro da aviação: os motores supersônicos.
Uma empresa notável tem se dedicado a ressuscitar as viagens aéreas mais rápidas que o som. Recentemente, eles aposentaram sua aeronave experimental de um assento, a XB1, e estão focados na construção de sua aeronave de passageiros em tamanho real, a Overture. Entre a fase de testes da XB1 (que agora vai para um museu) e a Overture entrando em operação comercial, há um extenso trabalho de P&D, especialmente nos motores que a própria companhia fabrica no Colorado.
No entanto, o uso pretendido desses motores se estende além das aeronaves. É neste ponto que as necessidades da crescente indústria de IA e o desenvolvimento da aviação supersônica convergem.
Motores de Aeronaves Gerando Energia em Terra
A utilização de motores de aeronaves como fonte de energia para data centers não é totalmente nova; já existem centros que empregam motores a jato como fornecedores de energia. Fabricantes de motores frequentemente oferecem versões de suas tecnologias adaptadas para gerar eletricidade em terra.
Entretanto, os novos motores supersônicos oferecem vantagens significativas sobre seus concorrentes subsônicos, que são projetados para operar em temperaturas muito mais baixas.
Quando um motor supersônico é executado em terra, como em um dia quente no Texas, os motores subsônicos exigem que suas operações sejam limitadas e que água seja injetada nas entradas para evitar o superaquecimento e, literalmente, derreter.
Data centers de IA já enfrentam escrutínio pelo volume de recursos que consomem, especialmente em locais onde recursos como a água são escassos. A grande vantagem do motor supersônico da Boom é que ele não precisa de água para resfriamento.
Em altitude subsônica, a -50°F (cerca de -45°C), as temperaturas são frias. Mas em voo supersônico, a 60.000 pés (cerca de 18 km) no Mach 1.7, as temperaturas chegam a 160°F (cerca de 71°C). Como o motor é projetado para operar em 160°F, temperaturas de 110°F (cerca de 43°C) no Texas não representam um grande desafio operacional.
Superpower e Symphony: As Duas Faces do Motor
A turbina de potência terrestre da Boom é chamada de Superpower, enquanto o motor aeronáutico é chamado de Symphony. Eles são quase idênticos, com poucas diferenças cruciais.
Para entender melhor, os motores são compostos por dois eixos, ou “spools”:
1. **Eixo Interno (High Spool ou Core):** Contém o compressor de alta pressão, a câmara de combustão e a turbina de alta pressão. As peças que compõem esta seção são quase exatamente as mesmas tanto no motor terrestre quanto no de voo. A única alteração é nas saídas de combustível e na câmara de combustão, que são ajustadas para usar gás natural (metano) em vez de combustível de aviação a jato.
2. **Eixo Externo (Low Spool):** Na aplicação de voo, ele contém o fan (hélice) frontal para aplicação na aviação. Na aplicação terrestre, o fan é substituído por dois estágios de compressor, e um componente chamado “turbina de potência livre” é adicionado na parte traseira. Esta turbina captura o fluxo de ar que, na aviação, geraria impulso (thrust) e o usa para gerar energia rotacional. Essa energia aciona um gerador capaz de produzir 42 megawatts de eletricidade.
No geral, as máquinas são aproximadamente 80% idênticas em peças, 100% na manufatura e na tecnologia fundamental. Isso significa que o aprendizado obtido no desenvolvimento do motor terrestre será diretamente traduzido para a criação de um motor de passageiros supersônico muito mais confiável e eficiente.
Abordando as Críticas Climáticas
Uma das críticas mais comuns ao rápido crescimento da IA é o aumento da demanda por energia, que pode levar a um aumento na demanda por combustíveis fósseis — o tipo de combustível usado pela maioria das turbinas de potência terrestre, incluindo as da Boom (gás natural/metano).
Este é o mesmo combustível usado, por exemplo, no motor New Glenn da Blue Origin e no Starship.
Ao ser questionado sobre a preocupação da IA com o impacto climático, a perspectiva é que o futuro precisa de todas as formas de energia: gás natural limpo, solar, hidrelétrica e, notavelmente, nuclear. A crença é que todas as formas de energia devem competir em um campo de igualdade.
Benefícios da Convergência
Com a tecnologia Superpower, os data centers de IA podem aproveitar a potência dos motores a jato supersônicos, aliviando a pressão sobre a rede elétrica existente. Além disso, a Boom ganha uma oportunidade valiosa para testar seu motor em terra antes de integrá-lo às aeronaves, servindo como uma ponte financeira entre o desenvolvimento da aeronave experimental (XB1) e o futuro Overture.
A expectativa é que os motores da Boom sejam os novos motores a jato mais testados da história antes de transportar passageiros. A empresa planeja começar a fornecer energia para seus primeiros clientes de IA em 2027 e iniciar o transporte de passageiros em sua aeronave Overture em aproximadamente cinco anos.
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Perguntas Frequentes
- O que é a Superpower?
Superpower é o nome dado à turbina de potência terrestre da empresa, baseada no design do motor Symphony, projetada para gerar eletricidade, como 42 megawatts, utilizando o motor supersônico adaptado. - Como o motor terrestre difere do motor de voo?
O núcleo do motor é quase idêntico. A principal diferença reside no eixo externo (low spool): o motor de voo possui um fan, enquanto o terrestre substitui isso por estágios de compressor adicionais e uma turbina de potência livre para acionar um gerador. - É possível que a adaptação do motor para IA ajude no desenvolvimento da aeronave?
Sim. A empresa acredita que os aprendizados obtidos ao operar o motor em terra, usando gás natural, serão cruciais para garantir que o futuro motor de voo supersônico seja altamente eficiente e confiável. - Qual combustível é usado na versão terrestre do motor?
A versão terrestre utiliza gás natural (metano), o mesmo combustível usado em alguns sistemas de foguetes, em vez do combustível de aviação a jato. - Por que motores supersônicos seriam melhores para data centers do que motores subsônicos?
Motores supersônicos são projetados para lidar com temperaturas operacionais muito mais altas (como 160°F) sem a necessidade de pulverizar água para resfriamento, um requisito comum em motores subsônicos quando operados em terra em climas quentes.






